Birth as we know it (O nascimento como nós o conhecemos), 2006

Este filme é um documentário impressionante sobre a procriação consciente.

Trailer: http://www.birthasweknowit.com/trailer.html


O filme mostra 11 partos incrivelmente maravilhosos: em casa, no Mar Negro, parto pélvico e parto de gémeos na água em casa. Inclui também entrevistas em que vários tópicos são abordados: registo límbico, sexualidade no parto, cesareana, circumcisão, Lotus birth (não há corte do cordão umbilical; o bebé fica ligado à placenta até o cordão se soltar naturalmente do seu umbigo), educação para um parto consciente, e muito mais! Com uma cinematografia belissima e um soundtrack arrebatador, estes 74 minutos de filme apresentam ao espectador uma rara oportunidade de testemunhar a verdadeira natureza do nascimento e o potencial da mulher para acompanhar o seu bebe no processo de nascimento de forma graciosa e destemida.A criadora e produtora do filme, Elena Tonetti-Vladimirova, foi uma das pioneiras do Movimento pelo Nascimento Consciente na Russia, desde 1982, quando pela primeira vez reconheceu a necessidade de transformar as práticas de nascimento. Nas palavras da Elena, “A qualidade do nosso período formativo define a qualidade da nossa vida”, “O processo de nascimento afecta a nossa capacidade para amar, experienciar felicidade e intimidade, assim como se o viver num corpo é vivenciado como seguro e prazeroso ou doloroso e solitário.” A Elena trouxe a sua sabedoria sobre como evitar complicações no parto através de um programa de educação efectivo que é mostrado no filme. “O nascimento é o último acorde nesta fascinante viagem de auto-descoberta. Quando toda a preparação foi realizada, o nascimento do bebé desenrola-se em toda a sua magnificiência.” Através dos seus workshops Birth Into being a Elena ajuda os participantes a libertarem-se do seu próprio trauma de nascimento e crenças limitadoras e convida-os a experienciar o poder profundo do Nascimento (Birthing Field).Já em 57 países, este filme tem recebido reconhecimento global como um dos mais detalhados guias no mundo para o Nascimento Consciente.

O filme recebeu uma demorada ovação de pé na Conferência dos Direitos Humanos em Seattle, WA em Agosto de 2006. Está já na sua 6ª edição, sem publicidade ou marketing, apenas pelo passa palavra. Traduzido em 12 línguas por voluntários locais inspira um verdadeiro movimento popular por todo o mundo!

Em 2008 foi incluido no curriculo obrigatorio de todas as escolas médicas e universidade no Irão (o Comité Educativo do Irão permite apenas 5 filmes estrangeiros nas suas escolas!). Em 2009 foi ratificada uma lei que estabelecia como meta uma redução das cesareanas de 40% para 12% até ao ano de 2012.

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Registo Límbico

Autora deste artigo: Elena Tonetti. Tradução livre feita por mim.

Porque é tão essencial para nós entender a importância de uma gestação e de um nascimento feliz e saudável? Qual a intenção de fazer todo o possível para eliminar o trauma no nascimento? De que forma esse trauma nos está a afectar?

Pois afecta-nos muitíssimo!

O bebé, bem antes do seu nascimento, assim como durante e logo após o nascimento, é um ser extremamente sensível, de facto, mais sensível do que alguma vez será durante toda a sua vida. Para além de ser capaz de sentir, o bebé recorda todas essas sensações e sentimentos de forma não-cognitiva. As nossas primeiras impressões ficam connosco para o resto da vida, para o melhor ou para o pior. Vinte anos de investigação e estudos no campo da psicologia pré-natal demonstram claramente a correlação directa entre a forma de nascer e os padrões emocionais e comportamentais subconscientes no adulto. Isto deve-se ao mescanismo a que se chama “registo límbico”.

Estamos familiarizados com o estabelecer as definições básicas nas nossas televisões, câmaras, computadores, etc…. Se imaginares que a televisão está configurada para “máximo azul”, então, independentemente do filme que estiver a dar, tudo estará azul; se a claridade está ajustada em “escuro” acontece o mesmo, independentemente da claridade do filme original, o ecrã vai mostrar uma imagem muito preta.

Este exacto mecanismo está em funcionamento em nós enquanto mamíferos. É o mesmo registo límbico que se usa deliberadamente há milhares de anos para treinar animais a servir os humanos: elefantes, camelos, cavalos, ursos no circo. Por exemplo, um elefante bebé é repetidamente atado a um pau com uma corrente. O pequeno elefante tenta com todas as suas forças soltar-se durante uns dias e depois rende-se. Quando cresce, embora já detenha força suficiente para arrancar o pau, isso não acontece. Nem sequer tenta…

Para melhor compreender o termo “registo límbico” vejamos a estrutura básica do nosso cérebro.

Na ponta da espinal medula existe um segmento chamado cérebro reptiliano, somente responsável pelas funções fisiológicas do corpo. É a parte do corpo que continua funcional quando uma pessoa está em coma, no estado vegetativo, por exemplo – neste estado as mulheres podem menstruar e se estiverem grávidas, a gestação pode prosseguir.

Temos também o cortex, conhecido como”materia cinzenta”, que é o responsável pela actividade mental. A ele que nos referimos normalmente  quando falamos de “o cérebro”. Esta é a parte do cérebro responsável pelas funções cognitivas tais como a lógica, cálculo, planificacão…

E também o sistema límbico do cérebro,  responsável pelas nossas emoções, sensações e sentimentos.

O registo límbico tem lugar nessa parte do cérebro que não está directamente conectada com o córtex, o responsável pela memória cognitiva. Durante a gestação, o nascimento e a primeira infância, o sistema límbico regista todas as nossas sensações e sentimentos sem fazer a tradução para a linguagem do cortex, simplesmente porque este ainda não se desenvolveu. Esta memória vive no nosso corpo para o resto da nossa vida, quer nos dêmos conta ou não.

Chegamos a este mundo totalmente abertos para receber amor. Quando recebemos amor como a nossa primeira experiência primária, o nosso sistema nervoso é programado para o inegável direito de ser (existir). Ser abraçado pelos braços amorosos da mãe, ser amamentado pelo seu peito, ver a imensa alegria nos olhos do pai, dá-nos um sentido natural de felicidade e segurança. Estabelece o nosso lugar no mundo como o sítio certo para estar.

Se as nossas primeiras impressões do estar no corpo são menos do que amorosas (dolorosas, intimidantes, de solidão…) então essa “qualquer coisa que seja” vai ficar registada como uma experiência válida de amor. Fica imediatamente codificada no nosso sistema nervoso como “zona de conforto” actuando como substituto do amor e carinho, não sendo relevante o quão doloroso, frustrante ou indesejável realmente era.

E no futuro, enquanto adultos, vamos recriar inconscientemente, automaticamente, as condições que ficaram registadas no nosso nascimento e primeira infância.

Investigações por parte dos pioneiros da psicologia prenatal como o Dr.Thomas Verny, Dr. David Chamberlain ou Dr. William Emerson mostram que uma quantidade impressionante de condições físicas e disfunções de comportamento nos adultos são o resultado directo de uma gestação traumática e de complicações no nascimento, incluindo intervenções obstétricas e overdose de anestesia. Provaram também que, para além do efeito devastante do trauma durante o parto em si, o que acontece logo após o nascimento, tal como a rotina impessoal do cuidado pósnatal, é também uma fonte de problemas: a falta de contacto imediato com a mãe – o seu calor, a sua ternura e cuidado, o seu leite – o corte prematuro do cordão umbilical, a rudeza na forma como pegam no bebe e o limpam, a circuncisão, agulhas, luzes fortes, ruido… toda essa sobrecarga sensorial fica instantâneamente gravada no sistema nervoso do recém-nascido como a sua nova “zona de conforto”, contra toda a lógica, pois a lógica localiza-se noutra parte do cerebro e não se encontra ainda desenvolvida. Esta pessoa irá então inconscientemente recriar/atrair a mesma situação de abuso e/ou ela própria tornar-se no abusador. Mesmo que mais tarde na sua vida o seu cerebro racional/córtex reconheça este padrão de “abuso” não terá a capacidade para parar esse padrão, pois o registo foi efectuado noutra parte do cérebro, no sistema límbico.

Segundo um estudo de 1995 realizado pelo Dr. William Emerson, 95% de todos os nascimentos nos Estados Unidos são considerados traumáticos, 50% deles classificados como trauma “moderado,” e 45% como trauma “severo”. Afecta-nos a todos.

Nascidos num contexto de dores excruciantes ou na dormência e toxicidade da anestesia, o nosso registo límbico nivela-nos no sofrimento e dormência. O nascimento traumático despoja-nos do nosso poder e afecta a nossa capacidade de amar, confiar, ser íntimos e de viver o nosso verdadeiro potencial. Adições, pouca destreza no encontrar soluções face a desafios, uma autoestima baixa, a incapacidade para sentir compaixão ou ser responsável – todos estes problemas estão relacionados com o trauma do nascimento. Para obter mais informação podes pesquisar em: http://www.birthpsychology.com.

Normalmente uma mulher dá à luz da mesma maneira que ela própria nasceu devido ao mecanismo do registo límbico. Isto é o que o seu corpo sabe sobre o “como” procrear. Se ela nasceu com complicações, é muito provável que ela recrie o mesmo cenário. A não ser que ela conscientemente altere essa memoria límbica, inconscientemente ela passará o seu trauma natal à sua filha do mesmo modo que o recebeu da sua mãe. Dar à luz pela primeira vez é um passo grande para a cura. Por isso os partos seguintes são usualmente mais fáceis. Reconheço que esta é uma observação muito generalista.

Os aspectos sangrentos e violentos da história da humanidade foram criados por pessoas que não receberam o amor e cuidado afectuoso que necessitavam enquanto bebés. A estatística do Dr. Stan Grof mostra que 100% de todos os criminosos violentos eram bebés não desejados. Claramente isto não significa que um bebé não desejado se vá tornar necessariamente num criminoso, claro que não!, a maior parte dos pais acaba por aceitar o desafio de se tornarem pais, apaixonam-se pelos seus bebés e tomam bem conta deles. Contudo, sim, significa que os bebés desafortunados cujos pais não conseguiram suprir as suas necessidades afectivas vão ter muito menos hipóteses de ter sucesso na vida. Historicamente, a maioria das obras-primas da cultura humana reflectem o drama da vida: inveja, avareza, luxúria, ódio, sonhos perdidos, potencial não realizado; as peças de Shakespeare, séculos de pinturas, música clássica são tudo formas muito belas de falar do desespero da humanidade. Só uma parte muito pequena da nossa herança cultural fala de amor, beleza e realização. Porque será?

Eu creio que é porque o fluxo de fluidos criativos é determinado pela forma como sentimos e experienciamos a vida. E a forma como vivenciamos a vida é maioritariamente determinada pelo nosso registo límbico. Este registo define o que nos agrada e o que nos desagrada, o que nos parece bonito, atractivo e o que nos repele.

Então, tal como eu o entendo, para dar à luz uma obra-prima iluminada, seja na forma de um bebé humano ou um belo poema, ou um jardim saudável, ou simplesmente um dia precioso que mereceu ser vivido, há que primeiro passar pela experiencia de ter nascido com amor. E todos nós que nascemos faz muito tempo numa situação menos feliz (toda a situação que seja menos do que extática) necessitamos de encontrar uma forma de curar o nosso trauma natal que é a nossa força motriz desde o primeiro dia. Ser uma mãe ou pai para nós próprios (para a nossa criança interior), darmo-nos amor incondicional de uma forma saudável PODE neutralizar a maior parte dos estragos.

Há muitas formas de recuperar o nosso sentido de bem-estar e eu ofereço uma delas nos meus birthshops. Falarei disso mais tarde no livro.

Curar o nosso trauma de nascimento permite-nos apreciar a deliciosa, suculenta experiência de confortavelmente ter um corpo, estar completamente engajado na vida e amar fazê-lo. Para mim, gozar a vida é a forma mais prática e segura de viver. Qualquer outra coisa que não um profundo sentido de bem-estar é muito caro, confuso e consome muita energia – somos capazes de gastar muitos recursos a tentar compensar o não nos sentirmos bem nos nossos corpos.

O que para mim começou em 1982 com o pioneiro russo de partos na água, Igor Charkovsky, como trabalho de pesquisa por forma a eliminar o trauma para os bebés, desenvolveu-se numa bela e profunda experiência de cura para mim pessoalmente. Se me quiseres conhecer no meu profundo compromisso para uma maior felicidade, estou disposta a partilhar contigo o que aprendi.

Podemos fazer um esforço para curar o nosso próprio trauma de nascimento e abraçar a oportunidade de criar a obra-prima da nossa vida. Podemos reconhecer que embora o nosso começo de vida tenha sido desrespeitoso, temos a escolha enquanto adultos de alterar a nossa configuração básica, reprogramar o nosso registo límbico e transmutar o nosso sofrimento e desamparo durante o nascimento, experienciando a alegria e amor de ter nascido neste planeta.

Podemos recuperar o nosso poder autêntico, limpar a dor dos nossos ancestrais do nosso sistema e podemos criar as condições para que os nossos filhos entrem na vida como pacíficos e poderosos guardiões da terra. Convido-te a visualizar as possibilidades que se abrem à humanidade se a mulher invocar a sua capacidade original enquanto mamífera que é: dar à luz e criar os seus bebés sem trauma.

Podem chamar-me naïf, contudo acredito firmemente que poderíamos melhorar a qualidade da nossa espécie numa geração ao permitir que os nossos filhos entrem neste mundo sem serem “programados” para a dor e o sofrimento. Eu visualizo uma nova geração a ser recebida num mundo de segurança, compaixão e senso comum. Junta-te a mim nesta visão, por favor.

Vejo a Procriação Consciente como um portal para a recuperação da nossa espécie. Neste livro explico como e porquê. É uma grande questão filosófica – a programação habitual dos humanos na dor como a norma. É por isso que escrevo este livro. A “programação” acontece de uma forma ou de outra, quer estejamos conscientes dela ou não. Quer gostemos ou não, é assim que o nosso corpo funciona. Por isso, quero partilhar as minhas observações sobre o que funciona para obtermos um resultado positivo.

Como disse Einstein: Não podemos resolver um problema com o mesmo quadro mental que criou o problema à partida.” Nós temos 250 guerras a acontecer no mundo agora mesmo. Criámos níveis de poluição ambiental que ameaçam a existência, sistemas políticos que não funcionam, economias que não são capazes de nos sustentar e estratégias sociais que nos ignoram. Claramente estamos no ponto de mudança. Se verdadeiramente compreendermos como criámos esta bagunça, temos uma boa chance para a desfazer.

Revoluções sociais e medidas políticas não vão funcionar pois foram desenhadas por pessoas conduzidas pelo seu próprio trauma de nascimento e apropriadas para encobrir a dor e terror do nosso inconsciente colectivo (basta observarem o que os nossos governantes planetários estão a fazer…). É impossível ter um profundo sentido de bem-estar se nunca houve um ponto de referência sobre o que é que é suposto sentir. Primeiro que tudo: necessitamos criar esse ponto de referência dentro de nós próprios. Depois, aí sim, podemos apresentar soluções para os nossos dilemas que estejam embasadas em terreno firme e não em reacções súbitas febris e desesperadas.

Não podemos prosperar como espécie a não ser que criemos una nova geração que não tenha sido estragada no útero pelo alto nivel de hormonas de stress no sangue da mãe. Como eu digo: “É muito mais fácil criar boas pessoas novas do que tentar consertar as velhas”.

Se a configuração básica desta nova geração não for a “ansiedade”, “dor”, “medo”, mas sim o “amor”, “segurança”, “profunda conexão”, colocadas na definição mais alta da configuração  – então, nós, as pessoas, teremos uma verdadeira oportunidade.